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Açúcar entra em círculo virtuoso sem interrupção à vista

Deflagrada há cerca de dois anos pela disparada dos preços no mercado internacional, a “febre do açúcar” promete produzir novos recordes em 2006. O ciclo virtuoso dessa tendência, que se alastrou pelo país, tem fôlego para durar pelo menos até 2008.

Puxado pelo aumento da produção e das vendas externas brasileiras, o faturamento do setor – da cana aos produtos processados, inclusive o álcool – deverá somar R$ 43,23 bilhões na safra que começa a ser colhida em março (2006/07), 10% mais que no ciclo anterior, de acordo com a consultoria Procana.

As usinas sucroalcooleiras embolsam a maior parte dessa receita, mas os produtores de cana também deverão ganhar mais. “Da porteira para dentro”, a renda agrícola da cana está projetada pelo Ministério da Agricultura em R$ 14,162 bilhões neste ano, 4,6% acima do montante do ano passado.

Alavanca dos ganhos das usinas, as exportações devem seguir firmes. Tão firmes que poucos se arriscam a prever em quanto elas chegarão. Em 2005, os embarques de açúcar, terceiro item no ranking das exportações do agronegócio nacional, atingiram 18,14 milhões de toneladas, 15,1% mais que em 2004, e renderam US$ 3,9 bilhões, salto de 48,3%.

Todos números superlativos, mas que podem se tornar mais expressivos. Isso porque, segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), até 2010 pelo menos 89 novas usinas de açúcar e álcool deverão entrar em operação no país, num aporte total estimado em US$ 10,5 bilhões. Também até 2010, a produção brasileira de cana tende a saltar das atuais 386 milhões de toneladas – que geram 27 milhões de toneladas de açúcar – para algo em torno de 535 milhões de toneladas.

Se confirmadas as expectativas, as novas unidades produtivas serão responsáveis por 350 mil novos empregos diretos, ante os atuais 800 mil. “A projeção é de 2,5 empregos por mil toneladas de cana”, explica Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica.

Com os investimentos, tende a crescer a ainda incipiente participação estrangeira no negócio no Brasil. A internacionalização começou na véspera do “boom” dos preços, mas a presença estrangeira ainda é limitada basicamente aos grupos franceses Tereos e Louis Dreyfus, com usinas em São Paulo e Minas. Agora, os mais baixos custos de produção do mundo atraem o interesse de outros concorrentes estrangeiros e de fundos internacionais de private equity. “Há vários grupos interessados em investir no país”, afirma Josias Messias, presidente do Procana.

Com pequena participação estrangeira – indireta – em seu capital, a Cosan, maior empresa do setor do país, lidera outro movimento em curso: a concentração. Com 16 usinas em operação, o grupo abriu o capital em 2005 e tornou-se a primeira usina sucroalcooleira do país com ações no mercado. Rubens Ometto de Silveira Mello, presidente da Cosan, não teme a imigração. Segundo ele, a chegada dos estrangeiros não ocorrerá em ritmo acelerado, e tais companhias costumam ter perfil conservador.

O grupo J. Pessoa, com dez usinas no país, foi o segundo maior comprador de concorrentes nos últimos anos, e estuda se armar para enfrentar a crescente concorrência também por meio da abertura do capital, como a Cosan. Especialistas lembram que em geral as usinas brasileiras tornaram-se mais eficientes com o fim da intervenção do governo do setor, na década de 1990, e que por isso para competir com o Brasil os estrangeiros têm de vir mesmo para cá.

E isso, sobretudo, se as cotações internacionais do açúcar “respeitarem” as projeções dos analistas e não permanecerem no patamar de hoje, o mais elevado em 25 anos. Nos últimos doze meses, a escalada do produto na bolsa de Nova York chega a 91,5%; em 24 meses, a valorização do “ouro branco” já alcança impressionantes 219%, de acordo com cálculos do Valor Data cujo ponto de partida é 15 de fevereiro de 2004.

A comparação com outras commodities agrícolas exportadas pelo Brasil chega a ser covardia. E mesmo em relação aos outros “ouros” famosos a diferença é grande. O amarelo, por exemplo, subiu 26,7% em um ano e 31,6% nos últimos dois. Já o petróleo, “ouro negro” cuja disparada tirou o álcool do ostracismo e por isso tem relação com a valorização do açúcar, registrou elevações de 30,3% e 82,7%, respectivamente.

Já acima de 18 centavos de dólar por libra-peso em Nova York, ante média histórica de 6 a 7 cents, os contratos futuros do açúcar poderão bater em 25 cents no curtíssimo prazo, segundo analistas, em virtude do petróleo e seus reflexos no mercado de álcool combustível e da redução dos embarques de açúcar refinado da União Européia.

Mas as cotações do açúcar se sustentam nos próximos anos considerando-se os pesados investimentos no Brasil e os projetos de novas usinas em outros países? Para especialistas do país e do exterior ouvidos pelo Valor, a resposta é sim.

“Os excedentes de produção do Brasil não crescerão na mesma proporção da queda da participação da União Européia”, diz Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro. A UE deve reduzir entre 3 e 4 milhões de toneladas suas exportações de açúcar por determinação da Organização Mundial do Comércio (OMC) – que condenou a política de subsídios do bloco em processo movido por Brasil, Austrália e Tailândia.

“Por conta da determinação da OMC, de 15 a 20 usinas de açúcar na Europa serão fechadas”, observa Patrick du Genestoux, presidente da consultoria francesa Ersuc. A Europa tem cerca de 150 usinas em operação, e boa parte sobrevive às custas dos subsídios.

Leonardo Bichara, analista da International Sugar Organization (ISO), com sede em Londres, afirma que os projetos para a construção de novas usinas de álcool em países como Estados Unidos, Tailândia e Índia, mas também no mercado europeu, deverão conter uma explosão da oferta global de açúcar apesar dos preços convidativos.

Com crescimento anual entre 1,5% e 2% ao ano, a produção mundial de açúcar – em torno de 150 milhões de toneladas anuais – encontra suporte principalmente no aquecimento da demanda em países em desenvolvimento. “O crescimento do consumo não é direto. Se dá nas indústrias de alimentos e bebidas e está diretamente ligado ao avanço da urbanização em países como China e Índia”, lembra Plínio Nastari, da Datagro.

Assim, os oráculos do mercado prevêem, sim, uma queda de preços, mas que deverá ocorrer em dois ou três anos, gradualmente e não de volta à média histórica, mas acima dela. “A produção deverá crescer, mas o mercado encontrará um equilíbrio”, diz Júlio Maria Martins Borges, presidente da Job Economia e Planejamento. Para ele, esse equilíbrio virá da maior procura por energia renovável em países consumidores muito dependentes do petróleo.

E energia renovável, diga-se de passagem, também é com as usinas brasileiras. Grande produtor e com exportações crescentes de álcool, o Brasil também nesta frente será referência tecnologia e eficiência, segundo Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Unica. A cana mostra sua força.

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