O etanol de milho vem deixando de ser encarado apenas como uma alternativa de entressafra e passa a ocupar um papel estrutural na estratégia das usinas de cana-de-açúcar. A avaliação é de André Rocha, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG) e do Sindicato das Indústrias de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg). Rocha será um dos destaques do Painel Bioenergia Cana & Milho – Panorama Estratégico, que integra a programação do BioMilho Brasil 2026, no dia 26 de fevereiro, em Ribeirão Preto (SP).
Em entrevista ao JornalCana 360, André Rocha destacou que o movimento em direção às usinas flex é consequência direta de uma trajetória de busca contínua por eficiência. Segundo ele, a diversificação da produção não é uma ruptura, mas uma evolução natural de um segmento que, ao longo das últimas décadas, aprendeu a maximizar ativos, reduzir desperdícios e criar novas fontes de receita.
“O setor deixou de ser apenas sucroalcooleiro e se tornou sucroenergético. Primeiro com a cogeração de energia, depois com novas soluções como biogás, biometano e, agora, o etanol de grãos. O objetivo é o mesmo: usar melhor o ativo industrial, diluir custos fixos e aumentar o faturamento”, afirmou.
Usina flex: eficiência e uso pleno dos ativos
Na avaliação de André Rocha, incorporar o etanol de milho ao modelo de negócios não significa apenas ampliar o portfólio de produtos, mas reorganizar a lógica operacional da usina. Ao produzir ao longo de todo o ano, a indústria reduz períodos de ociosidade. Ganha previsibilidade de receita e amplia sua flexibilidade, inclusive para equilibrar a produção entre açúcar e etanol conforme as condições de mercado.
Grande parte dessa atratividade está no aproveitamento de estruturas já existentes. “Quem já tem bagaço, tancagem, caldeiras e logística interna reduz significativamente o volume de investimento necessário. Isso torna o modelo mais eficiente e competitivo”, explicou.
Além disso, o uso de grãos como milho — e, em alguns casos, sorgo ou trigo — permite transformar desafios regionais em oportunidades. Em áreas onde a expansão da cana é limitada pela concorrência com culturas como soja e milho, a solução passa a ser integrar essas matérias-primas à produção industrial. “Em vez de competir com o milho, a usina passa a transformá-lo em etanol e DDG”, resumiu.
Critérios técnicos e desafios econômicos
Do ponto de vista técnico, André Rocha ressaltou que a decisão de investir em etanol de milho exige uma análise cuidadosa da realidade local. A disponibilidade de biomassa é um dos pontos centrais. Com preferência para o uso do próprio bagaço da cana, garantindo eficiência energética à planta industrial. Outro fator decisivo é a logística do milho. Especialmente em regiões com forte produção de segunda safra, onde o custo de transporte é menor.
A situação financeira da empresa também pesa na decisão. O dirigente alertou que o elevado custo do crédito, com a taxa Selic. Em torno de 15%, ainda é um dos principais entraves aos investimentos no setor. “Nem todas as empresas estão preparadas para acessar o mercado de capitais, o que exige governança, compliance e estrutura administrativa bem definidas”, observou.
Expansão do consumo é o próximo passo
Para André Rocha, o crescimento da produção precisa caminhar junto com a ampliação da demanda por etanol no Brasil. Ele destacou que avanços recentes, como o aumento da mistura do etanol anidro na gasolina de 27% para 30%, ajudaram a impulsionar o consumo, mas defendeu políticas mais robustas para estimular o etanol hidratado em todo o país.
“O etanol é um combustível renovável, mais limpo, que gera emprego e desenvolvimento no interior e ainda reduz a dependência de importação de gasolina. Ampliar seu consumo é estratégico para o Brasil, não apenas para o setor”, afirmou.
Nesse contexto, o etanol de milho tem papel relevante ao permitir a interiorização da produção em estados que historicamente tinham baixa oferta do biocombustível. Exemplos como Maranhão, Bahia e Rio Grande do Sul mostram como novas plantas podem estimular mercados regionais e reduzir a concentração do consumo em poucos estados.
Goiás como referência em usinas flex
Segundo André Rocha, Goiás se consolidou como referência nacional no modelo flex. O estado reúne um dos maiores parques industriais de cana do país, com 38 unidades, além de uma produção relevante de milho. Essa combinação coloca Goiás em posição estratégica frente a outros grandes players, como Mato Grosso e Minas Gerais.
“Temos cana, temos milho e temos políticas públicas que incentivam tanto a produção quanto o consumo. Isso explica por que Goiás é hoje o estado com maior número de usinas flex do Brasil”, destacou.
BioMilho Brasil 2026 no centro do debate estratégico
A participação de André Rocha no BioMilho Brasil 2026 reforça o papel do evento como um dos principais fóruns de discussão sobre o futuro do etanol de milho e do modelo integrado cana & grãos. Para ele, o encontro vai além dos painéis técnicos e se consolida como um espaço de articulação estratégica do setor.
“É uma oportunidade de o setor estar unido, trocar experiências, discutir políticas públicas e pensar caminhos para tornar a bioenergia cada vez mais sustentável e competitiva”, concluiu.
BioMilho Brasil 2026
- Data: 26 de fevereiro de 2026
- Local: Wyndham Garden – Ribeirão Preto (SP)
Inscrições: www.biomilho.com.br