Artigo exclusivo publicado na edição 358 da revista do JornalCana
A transição energética não é mais uma meta futura. É uma urgência presente. A recente aprovação do aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina (de 27% para 30%) e de biodiesel no diesel (de 14% para 15%), pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), reforça a relevância da bioenergia como alicerce estratégico do Brasil rumo a uma matriz mais limpa e autossuficiente. Essa medida representa, ao mesmo tempo, uma vitória ambiental, econômica e industrial, com potencial de atrair mais de R$ 10 bilhões em investimentos e gerar cerca de 50 mil empregos, segundo o Ministério de Minas e Energia.
Nesse contexto, o CEISE Br, entidade com 45 anos de trajetória no fortalecimento da indústria de base da cadeia bioenergética, enxerga uma nova fase de desafios e, sobretudo, de oportunidades para o setor produtivo nacional. Como principal polo industrial do setor no Brasil, Sertãozinho e região têm papel decisivo na sustentação tecnológica, na inovação de processos e no fornecimento de máquinas, equipamentos e sistemas que viabilizam o avanço dos biocombustíveis e outras soluções de baixo carbono.
Bioenergia e o Desenvolvimento Sustentável
A bioenergia está no centro da construção de um novo ciclo de desenvolvimento para o país. É uma solução madura, disponível e já incorporada à realidade da mobilidade, da geração de energia e, cada vez mais, da economia circular. Estudos liderados pela professora Glaucia Souza, da USP, indicam que os biocombustíveis podem reduzir até 800 milhões de toneladas de CO₂ até 2030, volume equivalente a 10% das emissões globais do transporte. Isso demonstra o quanto o Brasil já dispõe de ferramentas concretas para promover uma transição energética eficaz.
O crescimento do etanol de milho, que já responde por mais de 25% da produção nacional, segundo a UNEM, é uma evidência de como o setor está em expansão, incorporando novos modelos de negócios, tecnologias e regiões produtoras. As biorrefinarias baseadas em milho, muitas delas com tecnologia de ponta e produção integrada de DDG e captura de carbono, mostram que é possível unir produtividade, sustentabilidade e geração de valor. É um movimento que complementa, e não substitui, a tradicional produção a partir da cana-de-açúcar.
O Papel da Indústria de Base na Cadeia Produtiva
Neste cenário em rápida transformação, o papel da indústria de base é ainda mais decisivo. São as empresas fornecedoras de tecnologia, engenharia, caldeiraria, automação, manutenção e serviços que tornam viável a operação de plantas altamente eficientes, capazes de processar diferentes matérias-primas e entregar produtos de qualidade global. E é justamente para potencializar essa engrenagem que o CEISE Br está à frente da Cadeia Produtiva Local (CPL) da Bioenergia.
A CPL Bioenergia CEISE Br surge com o objetivo de conectar os diversos elos da cadeia produtiva, ampliar o diálogo entre produtores, indústria, academia e governo, e acelerar projetos de inovação, infraestrutura e internacionalização. A iniciativa cria uma camada de articulação institucional, estratégica, operacional e política, alinhada aos novos desafios impostos por mercados cada vez mais exigentes em termos de sustentabilidade e competitividade.
Sinergia e Reposicionamento do Brasil
Com foco em sinergia, a CPL busca integrar esforços em áreas como financiamento, certificações, eficiência energética, logística de exportação e formação profissional, contribuindo para o reposicionamento do Brasil como potência verde. A lógica é simples: não há descarbonização sem industrialização e não há industrialização sustentável sem política pública coordenada e ambiente favorável à inovação.
É por isso que a Fenasucro & Agrocana 2025, maior feira de bioenergia do mundo, realizada em agosto, assume um papel simbólico e prático neste novo ciclo. A criação da FenaBio, espaço de conferência e exposição voltado à bioeconomia e transição energética, reflete o avanço das agendas de biogás, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação e tecnologias de captura de carbono. E, mais do que nunca, os fornecedores industriais terão protagonismo nos debates e nas soluções.
Estamos diante de uma conjuntura que exige visão sistêmica, ação coletiva e decisões corajosas. O aumento das misturas de biocombustíveis, os investimentos em novas biorrefinarias, os dados sobre descarbonização e a mobilização de fundos internacionais para tecnologias limpas, como o R$ 1,3 bilhão do programa climático global do CIF, indicam que o futuro já começou. A indústria nacional precisa ser reconhecida e fortalecida como elo estruturante dessa transformação.
O CEISE Br e a CPL Bioenergia estão prontos para esse novo tempo. Seguirão atuando com firmeza e cooperação, como articuladores da indústria de base e parceiros estratégicos das políticas públicas que colocam a bioenergia como prioridade nacional. E reiteram: a transição energética começa com os pés fincados no chão, com máquinas produzidas aqui, conhecimento gerado aqui e soluções desenvolvidas por quem acredita que crescer e descarbonizar não são caminhos opostos – são, na verdade, o mesmo caminho, rumo a um futuro mais verde.