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Universidades unem pesquisas sobre biomassa da cana

Um projeto temático elaborado conjuntamente pelas universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e de São Paulo (USP) fornecerá subsídios para que o país dê um passo significativo na geração de energia elétrica, a partir do aproveitamento da biomassa da cana-de-açúcar. Os profissionais envolvidos acreditam que, mesmo aproveitando 80% do potencial possível, em dez anos o setor estará gerando perto de 3 a 4 GW de energia elétrica, o que corresponde a um quarto da produção da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná. Orçado em R$ 700 mil, o projeto acaba de ser aprovado para financiamento pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Ao todo, serão desenvolvidos oito subprojetos – sete deles por pesquisadores da Unicamp -, que analisarão os aspectos técnicos, econômicos, sociais e ambientais relacionados à produção de eletricidade no setor sucroalcooleiro. A coordenação geral dos trabalhos está a cargo dos professores Isaías Macedo (Unicamp) e José Goldemberg (USP).

Algumas das pesquisas incluídas no projeto temático já estão em andamento. A originalidade da proposta está justamente na reunião de todas elas, dentro de uma visão geral de planejamento energético. De acordo com Macedo, a idéia é aproveitar a capacidade das três universidades estaduais paulistas – técnicos da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) também auxiliam nos estudos – para estudar um tema de interesse nacional. “Vamos usar a competência dos pesquisadores para pegar um problema real e propor soluções”, ressalta. Segundo o dirigente da Coordenadoria de Relações Institucionais e Internacionais (Cori) da Unicamp, Luís Cortez, a iniciativa de englobar os trabalhos surgiu em meio à crise de 2001, que impôs o racionamento de eletricidade à população.

Na época, Cortez respondia pela coordenação do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), que ajudou a traçar as diretrizes do programa. “Nosso objetivo é criar condições para que o setor contribua efetivamente para a ampliação da oferta de energia”, afirma. Alguns requisitos para que a meta seja atingida já estão estabelecidos. Ele destaca, porém, que ainda é necessário promover uma maior sinergia entre os diversos processos que envolvem a geração de energia elétrica a partir da biomassa da cana. Isso requer, por exemplo, o emprego de novas tecnologias e sistemas.

Hoje, o Brasil colhe algo como 300 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por ano, o que o torna o maior produtor mundial. Metade deste volume é destinado à produção de açúcar e a outra metade, para a de etanol (álcool etílico). O desafio para os próximos anos está tanto em ampliar a safra quanto em recuperar integralmente a palha no campo. O professor Macedo estima que o aproveitamento desse resíduo implique no custo de US$ 1 por GW de energia gerada, o que torna a fonte competitiva em comparação aos modelos convencionais.

Além de promover esse avanço, afirma Cortez, também é preciso aprimorar o processo industrial. A queima do bagaço da cana, segundo ele, ainda é feita em fornos de baixa eficiência. “Os estudos que compõem o projeto temático caminham justamente no sentido de propor soluções para esses problemas. Alguns deles, inclusive, terão aplicabilidade quase imediata”, complementa Macedo.

De acordo com o relatório apresentado pela Unicamp e USP à Fapesp, o Brasil conta hoje com 308 usinas de açúcar e álcool, cada uma processando uma média de 1 milhão de toneladas de cana por ano. São Paulo responde, sozinho, por 130 dessas unidades, sendo que cada uma processa perto de 1,5 milhão de toneladas de cana anualmente. Uma tonelada de cana produz cerca de 140 quilos de bagaço, dos quais 90% são usados na produção de energia (térmica e elétrica). A mesma tonelada gera 140 quilos de palha, que hoje é queimada ou abandonada no campo.

O potencial energético representado por esses resíduos é impressionante. O bagaço produzido pelas usinas nacionais equivale a 11 milhões de toneladas de óleo combustível. Se fosse aproveitada integralmente, a palha equivaleria a 3,2 milhões toneladas de óleo. De acordo com Cortez, a energia elétrica gerada a partir da biomassa da cana pode e deve contribuir de maneira efetiva para o atendimento da demanda energética brasileira, que tem se mostrado crescente. “Mesmo aproveitando 80% do potencial possível, em dez anos o setor estaria gerando um volume de energia equivalente a um quarto da produção de Itaipu”, diz o especialista.

O uso em larga escala da biomassa da cana, que constitui uma fonte renovável, não representa apenas uma alternativa mais limpa e barata em relação à energia gerada pelas hidroelétricas ou aos combustíveis fósseis. De acordo com Macedo, ela também proporciona outros ganhos, como a geração de postos de trabalho e a sempre recomendada economia de dólares. Para o professor Cortez, esse novo cenário é factível de ser estabelecido, sobretudo em São Paulo, mas exigirá investimentos. “Caberá ao governo federal criar condições para isso”, opina.

Conforme Cortez, além da biomassa da cana, o país precisa aproveitar outras fontes alternativas de energia. Uma das medidas é ampliar substancialmente o uso da energia solar para aquecimento de água de banho. Segundo o professor Secundino Soares Filho, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec), da Unicamp, o chuveiro responde por cerca de 9% de toda a energia elétrica consumida no País.

“A difusão dos coletores solares daria uma grande contribuição ao esforço para estabelecer esse novo modelo energético brasileiro”, completa Cortez. A Unicamp, que tem tradição em pesquisa na área energética, deve continuar contribuindo para o melhor aproveitamento de novas fontes. Um segundo projeto temático, este envolvendo especificamente o álcool, já foi encaminhado para a apreciação da Fapesp.

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